O ano ao final do ano

15:20

Hoje apeteceu-me escrever. Afinal, desde 5 de Dezembro que ando calado. Mas prometi a mim mesmo que escreveria sobre este ano que se prepara para findar.

Uma palavra foi inúmeras vezes pronunciada durante este ano, principalmente a partir do segundo semestre – crise. Crise económica mundial que “não atinge Cabo Verde” (afinal a subida dos preços dos combustíveis é mera brincadeira para nós que já somos PDM), crise política e humanitária com abusos jamais vistos a nível mundial como os que acontecem na Somália e no Zimbabwe, ataques e guerras mil passando pela Índia, Iraque, Afeganistão, África e, recentemente, Faixa de Gaza. Por aqui o verdadeiro abuso está ligado à “política de rabata e Kassubódi” que a ELECTRA e a CVTelecom têm praticado – roubo sob o pano da legalidade. Em tom de brincadeira digo a conhecidos meus que estamos todos “montados na crise”. O facto é que muitos aproveitaram-se do sistema para benefício próprio em detrimento de outros que realmente sofreram com essa crise.



Contudo, o que mais me interessa é falar sobre a cultura. A arte que se faz por estas ilhas. Falar e fazer uma breve análise sobre determinados pontos. E começo por uma iniciativa que marcou o ano – o Fórum sobre Economia de Cultura. A iniciativa é louvável, e poderá ter se revelado frutífera, dando asas a análises, apresentação de ideias e iniciativas que não eram de nada novidade para os artistas deste país. Surgiu daí o tal Tratado da Praia. Até me faz lembrar o Tratado de Tordesilhas. Sinceramente ainda não vejo uma luz na escuridão. A fatia do OE destinado à Cultura continua a mesma miséria, e é com esse valor que vamos fazer dela (a Cultura) uma grande fonte de rendimento nacional.

Prefiro dar destaque à iniciativa da reabertura do Cinema da Praia, sob a tutela da Câmara Municipal da Praia. Penso que uma cidade sem cinema é uma cidade morta. É nisso que Mindelo está a tornar-se. Não há cinema, a melhor música é ouvida em hotéis de luxo, o teatro continua vivo mas o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português – IC continua a ser o mais produtivo (os outros são mais de blábláblá), não há muitos novos livros para ler, não há nenhum grupo musical de destaque made in Mindelo, enfim um rol de coisas que só me faz ainda aceitar esta cidade como Capital Cabo-verdiana da Cultura pela sua capacidade natural de absorver cultura e pelo público que é sempre sedento de cultura. É mais do que certo que a criação de uma sala de cinema em São Vicente já é uma emergência. E sabemos que o equipamento que estava no já extinto Éden-Park foi oferecido à Câmara Municipal de São Vicente, que ficou “responsabilizada” pela criação da Cinemateca do Mindelo. Até agora é o predomínio dos DVD piratas. E falando de pirataria, será que é desta que a SOCA (Sociedade Cabo-verdiana de Autores) consegue descolar? Afinal a violação dos direitos autorais e intelectuais neste país está cada vez mais parecido com a compra de bananas num passeio qualquer das ruas de S. Vicente. Em São Vicente destaca-se a reabertura do espaço do então Centro Nacional de Artesanato, agora “Museu do Artesanato”. Confesso que este nome correu comigo e com muita boa gente. A forma como foi inaugurada e como é gerida é, no mínimo, estranho. Se esse é um destaque pela negativa, destaco pela positiva a abertura das portas da Réplica da Torre de Belém para a exposição Naufrágios de Luísa Queirós. Uma mostra muito bem conseguida, temática e que encheu os olhos e a alma dos que lá foram visitar. E posso até considerar que, pelo trabalho desenvolvido, que Luísa Queirós é a pintora do ano.





No mundo da música, Mindelo restringe-se às noites de música ao vivo e aos concertos esporádicos. Por um lado ouve-se muita música boa, por outro nenhuma produção discográfica, nenhum grupo com os bons intérpretes. Tudo não passa de projectos, à parte do surgimento de um grupo revelação Soft e do contínuo mas não tão activo trabalho dos Fusion e de alguns grupos de Hip Hop. Enquanto isso produz-se muito na Praia. Mais um projecto Verão com muitos do zouk, cabo zouk, zouk love ou seja lá o que lhe queiram chamar e muitos bons projectos e produções, entre os quais o de Isa Pereira que está a chegar, do Eder, da Sara e da Teté Alhinho, do Princesito e ainda o do Hernâni Almeida. Os gostos não se discutem e o meu é esse – para mim o melhor disco deste ano é o da Sara e da Teté Alhinho, embora não tenha gostado do cover. Mas é uma opinião que me balançou pela criatividade e musicalidade patentes no Spiga do Princesito e do “atrevimento” do CD instrumental de Hernâni Almeida. Vejo Gerassons como um álbum maduro, produzido e orquestrado por grandes músicos como o Ricardo de Deus e o Kizó Oliveira. Uma mistura entre jazz e música tradicional que nos dá a oportunidade de saborear uma música made in cabo verde muito rica e que não deixa dúvidas que a nossa música tem tudo para enriquecer cada vez mais. O mesmo posso dizer do álbum de Princesito. Spiga surpreendeu-me, assim como a entrevista dada pelo autor. Princesito foi um verdadeiro “caçador di poema”, um “pescador d’inspirason” e Hernâni um “fazedor de sons”.




Dou ainda nota mais a Vadú que, com um valente empurrão do Hernâni, continuou a fazer sucesso em concertos aqui e acolá, dentro e fora do país. Princesito também fez sua parte. Cesária Évora, mesmo cansada ainda corre pelo mundo, enquanto menos pouco se ouve falar de Lura. Nancy Vieira e Maria de Barros continuam uma carreira brilhante. Maria Alice lançou um novo CD, arranjado e produzido por Humberto Ramos, artista que esteve em Cabo Verde, a convite da UniCV para um workshop sobre produção musical através de meios multimédia. Mário Lúcio andou em digressão com seu Badyo que se revelou um sucesso (Mário Lúcio afirma-se ainda mais na sua carreira a solo, além de ver cinco de suas peças teatrais publicadas em livro pela Associação Mindelact). Minha nota menos vai para o Tcheka que, embora tenha feito vários concertos, ficou muito longe com o seu Lonji, produzido pelo artista brasileiro Lenine. Longe mesmo de Argui e de Nu Monda. Hernâni marca mais pontos ainda com o seu primeiro álbum de originais Afronamim que foi apresentado em concerto de lançamento e repetido no passado dia 28 de Dezembro no Auditório da Academia de Música Jotamonte. O mesmo espaço recebeu o rei da morna, Bana, num emocionante espectáculo. A North Czech Philarmonic Orchestra gravou, sob a batuta da Harmonia a 3ª, 4ª, 6ª e 8ª sinfonias de Vasco Martins, o único músico cabo-verdiano com sinfonias escritas e gravadas. Um orgulho para um cabo-verdiano como eu mas sinto muita falta de um novo trabalho do Vasco Martins. Principalmente agora que voltou a tocar muito o seu piano clássico.

O aproveitamento da Academia de Música Jotamonte foi melhor, mas requer ainda um programa próprio, tal como o Centro Cultural do Mindelo.

A arte que mais tem crescido em São Vicente é o Teatro, mas não vejo um grande leque de produção. Contudo, todos os grupos e companhias teatrais mindelenses, à excepção da Companhia de Teatro Solaris, apresentaram novos projectos. Em contrapartida Solaris teve uma representação internacional nos Açores. O GTCCP-IC apresentou A Última Ceia (diferente e arrojada), Máscaras (um magnífico banho de beleza e poesia) e O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá - Uma história de amor (podia ser um musical, mas continua sendo a peça infantil que qualquer adulto se encantaria em ver), Atelier Teatrakácia estreou Cordão Umbilical (enfim um regresso às produções teatrais), TIM com mais uma produção intitulada Nôs Santa Luzia (continua a educação ambiental), e Sarron.com apresentou duas novas produções – Nha Rosa de Monte Verde (uma das surpresas do Festival Off 2008) e Biografia dum Criôl (seu segundo musical e, talvez, o mais aclamado). Contudo, três desses cinco espectáculos foram apresentados na programação do Festival Mindelact 2009. Contrariamente a 2007 não houve teatro durante todo o ano e o certame Março Mês do Teatro não se realizou. Os projectos pessoais e outras responsabilidades das companhias não permitiu a realização do evento. Muitos contestam, mas está na cara que os grupos sempre encostam-se na Associação Mindelact e ficam à espera que seja essa a tomar as iniciativas. Houve muito movimento na Zona da Ribeira de Craquinha e alguns workshops organizados por actores e formadores italianos e apadrinhados pelos Irmãos Capuchinhos, os quais permitiram alguns exercícios cénicos. Em ascenção estão as Estátuas do Mindelo, que nasceram de um workshop dado pelo Staticman durante o Mindelact 2009. Mas posso afirmar, com toda a certeza, que o teatro é a arte que mais produz em São Vicente. Além disso o público de São Vicente passou a encarar o teatro como uma religião – acreditam, têm fé e exigem que não pare. O público de São Vicente e o Festival Mindelact são os principais motivos da resistência e permanência do teatro em São Vicente. Fala-se ainda no surgimento de mais uma associação teatral. Com certeza será bem vinda, mas para que ela dure será necessário trabalhar com espírito leve, sem pretender ser uma concorrente à Associação Mindelact e apresentando e cumprindo propostas como a que apresentou – a realização de um festival nacional de teatro. Falando sobre o Festival Mindelact, diria que não foi nem melhor nem pior. É certo que há espectáculos melhores que outros, mas o que distinguiu mais este festival foi a melhoria da convivência e a oportunidade de aprender mais e sempre. O teatro que veio da Praia foi uma inovação, houve grandes espectáculos, dos quais posso destacar Máscaras, Stan, Reis da Fumaça, Nonada e ainda o meu preferido Ptolomeu e a Viagem de Circum-navegação. Este último espectáculo deixou a mim e a quase todos que o assistiram deliciaram-se com a fabulosa interpretação de Flávio Hamilton, conceituado actor cabo-verdiano saído de uma das fornadas do Curso de Iniciação Teatral do Centro Cultural Português, ora radicado na cidade do Porto, Portugal. E isso só permite para uma constante pontuação bem positiva do Mindelact como festival e como associação.




Ainda sobre o teatro congratulo o retomar dos cursos de iniciação teatral, que conheceram um interregno, agora sob a responsabilidade do Centro Cultural Português-IC e do Centro Cultural do Mindelo. Espero ver cada vez mais e melhor teatro.

Do Festival da Baía das Gatas não falo, por ter estado muito de fora na altura. Mas, pelo que consegui ver pela TV, foi um bom festival, com certeza. E não devemos esquecer nunca que o Festival da Baía das Gatas é o único e real festival generalista de música de Cabo Verde (não confundir festivais de música com festas de município).

O que ainda não me convence neste pais é a imprensa e a comunicação social em geral. Há grandes jornalistas no meio de um cataclismo de jornalistas medíocres e com pouco senso de profissionalismo, temos um jornal que entra de férias e gaba-se de ser o melhor e de cultivar uma saudade agostina no seio de seus leitores, temos reporters que mal falam crioulo, são um desastre no português e abusam de brasileirismos, pivots da televisão (TCV) que cultivam mais a imagem e um registo de voz que ofende os ouvidos e a inteligência de um indivíduo, enfim um desastre. Tudo isso não descurando da politização desavergonhada de muitos dos órgãos de comunicação nacional. A televisão, é uma vergonha de vinte e tal anos, melhor dizendo, uma adulta com comportamento de criança. As novas estações de televisão que tinham prazos por cumprir estão muito aquém das expectativas. A Tiver nunca mais inicia emissões em S. Vicente e no Sal e a Rede Record Cabo Verde só marca pontos em Santiago. Não seria tempo de se pensar na criação de uma TV regional ou comunitária em S. Vicente? Quanto às rádios, pode-se falar de uma melhoria da RCV, apostando nos jovens e com a afirmação de uma segunda antena – a RCVMais – e o decrescimento de outras rádios tais como a Rádio Morabeza que tem instalações cada vez menos dignas, oferecendo péssimas condições de trabalho aos seus colaboradores e uma emissão com fraca propagação, a Crioula FM que tem sua estação emissora na cidade do Mindelo dentro duma igreja e com portas fechadas, ou ainda a Rádio Nova que é sempre nova mas em nada inova. A Rádio Educativa, porém mostrou uma substancial evolução e demarcou-se pelo papel que tem e que pode melhorar mais.





Por um lado uma comunicação social precária, por outro um movimento bloguista que cresce a cada dia. Alguns blogs disparatados, alguns bastante irregulares, tal como deste, e outros mais regulares e com leitores e colaboradores assíduos, como é o caso do café margoso do João Branco, que teve direito inclusive a festa de aniversário. O papel dos blogs tem sido bastante importante a todos os níveis – cultural, politico, social, ou educacional. A criação do selo cabo verde blog foi um incentivo ao surgimento de novos conceitos, novas ideias e uma onda de “jornalismo não profissional” que superou todas as expectativas. As vantagens? São sites personalizados e os bloguistas podem escrever o que bem entenderem da forma que entenderem. Pessoas que não gostem não acedem a esses sites. Alguns dormem mesmo à sombra do anonimato. Mas os que mais marcam são os que se assumem e se tornam em autênticas tertúlias. Se do lado da comunicação há sempre censura, nos blogues a censura não tem muito espaço. O problema reside na falta de tempo dos bloguistas porem posts diariamente nos seus blogs e nisso há alguns que se destacam, caso do café margoso. O que é mais interessante é o facto de alguns jornalistas utilizarem blogs pessoais para fazerem o que não podem fazer na sua profissão. De bloguistas lembro-me bem do Abraão Vicente que, quanto a mim, foi uma das personalidades do ano. Trabalhou mais e preocupou-se menos em fazer aquelas criticas polémicas que fizera no ano transacto. Penso que o rapaz está a amadurecer mais e a revelar melhor o seu talento.

O que mais dói é o crescente roubo de energia, principalmente em Santiago, inclusive por “colarinhos”, enquanto que utentes das outras ilhas pagam por esses estragos. Além disso há sempre tratamento discriminatório por parte da ELECTRA. O próximo revirar dos nossos bolsos vai para a iluminação pública que não vamos poder nos livrar. A CVTelecom não fica para trás com seus lucros exorbitantes divididos entre CVTelecom, CVMultimédia e CVMóvel. A concorrência no ramo da comunicação é praticamente inexistente; a T+ precisa de uma maior afirmação em S. Vicente e de expandir seus serviços às outras ilhas, enquanto a CVWifi tem perdido alguns clientes devido ao seu serviço deficitário. A CVTelecom, através da Rede Vinti4 tem metido a mão nos bolsos de muitos que fazem telerecargas e não vêm mais seus telemóveis serem recarregados e suas contas bancárias diminuídas. As reclamações normalmente são muito dolorosas revelando um autêntico abuso. Eu fui uma das vítimas e pretendo definitivamente lidar apenas com a T+ .Ofereço-me inclusive para fazer campanha contra a CVMóvel. Além disso, as promoções levadas a cabo pela CVMóvel não passam de publicidade enganosa. A CVMultimédia “ofereceu” aos cidadãos a “oportunidade” de aderir ao serviço Zap de TV por cabo e diminuiu o preço dos contratos e de utilização de internet. Mas o que realmente diminui (aumento ou ilimitação de download) continua um tabu.

Para 2009 desejo: um cinema para São Vicente, numa forma da Câmara Municipal de São Vicente se redimir da barracada que deu em não comprar, ela mesma, o cinema Eden-Park, a transformação do espaço da FIC em espaço multifunções incluindo uma sala de espectáculos e de ensaios condigna, mais apoios para a cultura, mais espectáculos de teatro, representação do teatro cabo-verdiano noutras paragens por diferentes grupos de São Vicente, o surgimento de um grupo musical com profissionais da música como Hernâni, Bau, Voginha e outros mais, uma decisão sobre que “crioulo de Cabo Verde” para nós, melhorias para todas as Universidades, um jornalismo mais sério e com profissionalismo, muita paz, menos guerra no mundo, um bom desempenho de Barack Obama, a queda do governo do Zimbabwe, seriedade politica (acho que começo a sonhar demais), sucesso para mim, meus amigos e os que me consideram um alvo a abater (não quero vos desanimar, mas...), um Ministro da Cultura com boas e reais iniciativas e sem blablás, uma TACV nova sem essa desorganização absurda e abusada que apresenta neste momento, sendo, quanto a mim, a pior empresa do país (mesmo com a protecção visível do governo). Por fim, desejo que os cabo-verdianos, especialmente os mindelenses, sejam menos apáticos e apontem sempre o dedo na ferida. É preciso reclamar, é preciso falar, é preciso mostrar as nossa opiniões e não cair no laissez faire, laissez passer. Enfim, são tantos desejos que é melhor parar por aqui.

Deixo então minha opinião sobre os melhores de 2009. Agradeço que ninguém venha com comentários reprovativos, e aprendam de vez respeitar as opiniões dos outros.



Melhor Espectáculo teatralPtolomeu e a viagem de circum-navegação
Peça teatral mais criticadaBiografia dum Criôl
Companhia/Grupo Teatral do ano
Grupo de Teatro do CCP-IC
Melhor actor
Flávio Hamilton
Músico do Ano
Hernâni Almeida
Melhor ÁlbumGerassons de Teté Alhinho e Sara Alhinho e Spiga de Princesito
Exposição“Naufrágios” de Luísa Queirós
Televisão nacional do ano – espero que haja uma no próximo ano
Melhor Estação de RádioRCV e
RCV+
Filme do ano – espero pela abertura de um cinema no Mindelo
Programa televisivoTelejornal (continua uma porcaria mas é o único programa nacional com real interesse)
Blog do anoCafémargoso
Jornal do anoA Semana (pelas iniciativas e rosto, porém com um ponto negativo – o que é isso de férias para um jornal?)
Instituição CulturalCentro Cultural Português – IC
Espaço de música ao vivo
Mindelhotel
Concerto lançamento do CD de Hernâni Almeida
Festival
Mindelact

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